Uma Fábula
![]() Conta-se que, certo dia, Bolphur, o Patriarca das Serras, mandou reunir todos os animais das cercanias. Dirigiu-se às improváveis bestas, ao touro de cinco patas e três cornos, ao espírito dos bosques, animal quase tão inefável como uma ideia, à hidra, ao hipercamaleão, que mimetizava não só as cores mas também as formas dos que lhes estavam próximos e ora assumia o aspecto de um peixe ora de uma ave sem, contudo, deixar de ser o mesmo, ao peixe voador que sendo um peixe como os outros voava e não respirava sob a água, à translíqueia que era totalmente invisível e que se fazia presente através de um silvo tão perturbador quanto melodioso, ao liquidemusgo que permanecia sempre tão rente ao solo que apenas partilhava as dimensões do comprimento e largura, enfim, falou até para a Árvore Milenar que foi plantada antes do tempo e por isso permanecia imune aos seus efeitos. Raciocinou o ancião que o advento do homem estava próximo e que, as criaturas que não poderiam ser por este entendidas, dever-se-iam retirar para que o ser humano pudesse perceber ordem no mundo. Argumentaram os bichos que não tinham culpa de ser o que eram mas sabiam intimamente que não poderiam integrar o elenco das formas prescritas por Deus, nosso Senhor. Partiram então, sem uma palavra e sem olhar para o que deixavam, mas alguns ainda nos visitam secretamente nos sonhos. ![]() ![]() |
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