(s/ título)
Não sei quem sou, essa é que é essa. Tenho uma vaga, difusa, ideia de quem fui e fui muitas coisas ou, talvez, coisa nenhuma, ou, então, algumas coisas e não outras, umas que gostaria ter sido e não fui, sou ou serei, por defeito de fabrico ou kármica destemperança ou ainda -porque não? - por dolência indolente & insolente para com as coisas do porvir, outras que fui, e que bem poderia ter dispensado, não fora essa a ontológica ventura e se, claro está, tivesse tido a falaz oportunidade de tal privilégio me não ter calhado em sorte. O certo é que pouco ou nada vos posso adiantar pois, quem sou, não sei. Entendamo-nos. Sei o meu nome, onde moro e habito, sei até quantos sóis e luas passaram deste que esta carcomida carcaça viu a luz ou a sombra, pois acho - aqui com meus botões - que a luz, brilhante e clara e pura e límpida e azul ou branca, nunca cheguei exactamente a ver, ou porque permaneci num escuro tugúrio, umbrado de mofos e verdetes, ou porque sem olhos nasci, ou, se olhos tenho, os não aprendi, com exacta e própria ciência, a usar ou ainda, como se as dúbias dúvidas não me acossassem o bastante, seja falho, também, na arte de ver. Sei, igualmente, o nome de meus pais e de toda a longa progenitura que me engendrou e sei como hei de morrer. Ora, meus caros, detenhamo-nos neste ponto, acaso vos tenha passado despercebido o fundo comentário que, en passant e como quem não quer a coisa, deixei escapar, vertendo-o silabicamente num deix'andar de resvalar pelo palato em íntimas ressonância e, não digo que não, ressumando a espúrias e escusas transumâncias: sei com preciso e precioso rigor como hei-de morrer e quando e porquê e em que ominosas ou exaltantes circunstâncias, o que, vistas bem as coisas, é o mesmo que dizer que sei, no derradeiro e final momento d'estertor, qual o meu lugar na economia do urbe e, mesmo - vejam bem - do orbe. Mas, tal informação, notem inda os amigos, que para tantos seria d'inestimável valia, a mim não me serve de nada porque não sei quem sou, fui ou serei, à excepção da cônscia e fatal consciência do fim. Como às arrecuas ando, de tombos em tombos, procurando por mim e, sabeis já, que comigo não topo, qualquer que seja o afanado afinco com que procure. Parece, aliás, que nesta triste vida mais não fiz do que me buscar, por esquinas e vielas, perguntando a gentes e bichos, Conhecem fulano, assim e assado, nem alto nem baixo, antes pelo contrário, nem entroncado nem esquizóide e, muito menos, de dolicocéfala figura? Pois olhem que sou eu, e se vós o conheceis e me puderdes dar alguma informação sobre o arredio eu de mim, até pago bem, pois muito guardei para quando chegasse o momento, sim, este mesmo, e em chegando o desejado, não fosse impedimento impediente o simples e banal facto venal de não ter soldipilim para remir essa desgraçada notícia de minha pessoa, que teima em iludir o seu natural proprietário, que, no entanto, por casos e acasos do destino, se vê obrigado a descer à ignomínia de largar umas coroas por algo que, desde sempre, devia ter permanecido em sua posse, uso e fruição, como acontece a qualquer mortal que nasce e cresce e aos poucos vai sabendo quem é, e foi, e, embora não saiba como há-de morrer, vive contente e feliz e, em casos raros, raríssimos, com um certo júbilo d'existir, porquanto tem à sua frente um destino, decerto incerto, mas firme &'scorado numa doce, e digo doce e leda, identidade, coisa tão simples que parece só a mim me iludir no teimoso, e digo teimoso e tenaz, logro da sua ilusão. Saber quem sou, por tanto, e digo por e digo tanto, pois tanto parece, com clara & distincta perceptio, que muito hei-de penar e de sofrer e de buscar e de perder e de viver e de chorar e de fugir e de chegar e de dizer e de ficar, até - e, queridos e argutos sois vós, que já estais entendendo minha réstia d'esperança - chegar a morte desgrenhada e façanhuda como ela só, portando pela mão as amigas desoladoras, ou, como se diz e por aí se vai ouvindo, a gadanha acerada que a todos ceifa com brutal excisão do sopro vital, ou ainda, outros e variados aparatos de terminar o que forçoso é que termine, e tenha a gentil erada senhora, por muito cruel e cruenta que vos possa parecer, a fineza de bichanar ao meu ávido ouvido, Tu és isto, agora que teu consabido fim chegou, e foste aquilo, na tua larga mas cansada existência e - suprema dádiva da generosa mater que devora os próprios filhos - irás para este lugar, reservado aos puros e aos bons ou para aqueloutro, reservado aos réprobos, ou, não vais para lugar algum mas serás transconsubstanciado em outra criatura que terá a natural e bonançosa certeza de saber quem é, do mesmo passo que, desconhecendo, para sua grande e maior serenidade, a adveniência do último suspiro, poderá encarar o futuro, com aprazível calma ou intranquila bravata, mas sabendo, de um modo que não ouso descrever, que foi, em fim e a final, reposta a certa e correcta ordem das coisas. ![]() ![]() |
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