O Rei Hélios
Este texto é dedicado, com imenso amor, a todos os autocratas que, na sua Era uma vez um rei d'imensa majestade, incumbido das mais altas tarefas de conduzir a vida de seu povo. Perfeito em sua perfeição, poderoso em sua potestade, rebrilhava aos olhos de todos porquanto se fosse notado qualquer vislumbre de palidez do olhar, na formosa contemplação da sua luminosa figura, o ímpio cidadão perdia o direito a fazer uso de sua natural visão, em forma de justa cauterização dos imerecidos globos oculares. O mesmo, aliás, em boa justiça devia ser aplicado à fala e à língua e, do mesmo modo, ao punho que escreve e descreve a dúvida. E, se o incauto escriba ambidextro fosse, decepadas ambas as impuras mãos. No mais, tudo fluía, como pacato ribeiro, a não ser pela peculiar circunstância de que tanta real luminescência implicar um teratológico inchamento do já dilatado abdómen da majestade. Acesas foram as discussões na corte. Para os físicos seriam gases, para os místicos seria a consubstanciação de uma santidade tão pura e intensa que exigiria a necessária deformação do amado reizinho, pois a forma humana era limitada para conter tal beatude. Para os poetas, contudo, seria simples consequência d'albergar um pequeno sol d'entendimento alimentado pelas musas. O certo é que o rei não parou de inchar, em crescendo, até ao dia em que, flutuando como balão d'arminho adornado, rebentou, eviscerado e repartido por todas as superfícies desta sala que, até hoje, permanecem tintas d'anil do seu sangue. E c'alegria, querido leitor, com tua arguta percepção, que não foi sina de divina providência nem sacra possessão, mas empáfia exacerbada em combustível explosão. ![]() ![]() |
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