20 setembro 2021
#5 Considerações: Cul-de-Sac
13. 
A solidão ante o fim, a desventura, a inevitável decadência também oprimem, são horizonte férreo, inelutável. É curta e pequena a consciência que o sabe — que muitos também chamam de espírito ou de alma — sabendo ainda que nada pode fazer, excepto talvez procurar e encontrar uma resignação funda, tão funda que nada a perturbará, finalmente imune ao que é torpe e inútil e aziago assim como é indiferente a tudo o mais. E se disso se exuda alguma paz tal é precioso e frágil, mas permanente se houver firmeza e propósito. Não querer é a chave, não sentir é um bálsamo, não fugir é o bem. 

14. 
Por isto, por tudo isto o desânimo como condição vital sabe instalar-se, também ele insidioso e daninho, tenaz. É força e poder manso que pouco a pouco vai encerrando o horizonte da possibilidade, toldado óculo sem amplitude por onde se verá um mundo-pouco, apequenado e, porventura, distorcido. É alma sem carne, ou carne sem alma, mas de muito peso. Irmão e talvez pai do letargo, do imobilismo funesto, da vontade inane de fuga. Quisera ser lavado disso, talvez, inaugurar um tempo novo, das vistas largas e não já cerradas e torpes e esbatidas. Sim, um hausto feroz e fresco, uma liberdade toda outra, uma pulsão para o mundo e não este cansaço que é só torpor e desistência. Desistir da abdicação, avançar sem medo, responder ao pavor de existir com a serena força de um entusiasmo, quiçá, perdido sabe-se lá onde ou então pela erosão quotidiana e pelos traumas que toda a biografia vai acumulando pelo mau uso que lhe dá o tempo. 

15. 
Assim, este livro é feito da conjugação de todas essas forças, da obsessão centrípeta, da queda inerte, por vezes lenta, por vezes rápida, rapidíssima, um momento perene que se fixa pela persistência do trauma. E também no amor abunda o mau juízo, a impossível subjectividade, o que na vida é frustre, a terrível dimensão do não acontecido.
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19 setembro 2021
#4 Considerações: Cul-de-Sac
10. 
Por isso, aqui vos digo que há que resistir e lutar, fazer arte da vida, que é esse combate. É que a raiz de todo o mal é o desespero. Em primeiro lugar, o desespero de ser. Em segundo, o de padecer, e em terceiro, o de aguardar tudo o que é nefasto e pesado de malogro e que encerra a luz em um espaço diminuto onde se nem consegue respirar. 

11. 
Mas, ainda, há o letargo. Outro modo da desistência ante tudo o que oprime. É bem verdade, que o cansaço sobrevém a tanta luta, é na altura em que se baixam os braços, se descrê no futuro, tudo é um horizonte gris perante tal malogro, a aprazada queda, a inutilidade de agir. Não se tiram nunca férias da existência. Há que porfiar mais um dia, sempre mais um dia, sem uma suspensão agregadora de forças, pausa lustral, ou sequer um corte com a circunstância. É um fluido contínuo, ainda que cíclico, sem nenhuma possibilidade de obter uma verdadeira perspectiva, externa ao si, em suspensão benéfica, imobilista. Sim, o Santo Imobilismo também é ou pode ser isso. É o seu lado salutar e bom, ultrapassado o evitamento sistemático gerado pelo medo, é um imobilismo produtivo, mas como deveis calcular, improvável ou até impossível. 
 
12. 
A angústia é mesmo um aperto. Invade o espaço vital. Torna-se totalitária. Contínua. Coisa outra, toda outra, seria um hausto livre, entusiasmo e ar aberto. Um conceito vivido de radical abertura. Sim, sem peso e pavor e ainda assim, com a âncora telúrica a emprestar densidade ao mundo visto pela lente onírica da possibilidade. Não mais esse abatimento falho de energia, um letargo absoluto que vê passar o tempo como de longe e que, depois, se questiona para onde foi. E o tempo é rio-de-sentido-único, não se repete e não volta, não se acelera nem se sustém a não ser pelas variações subjectivas da sua observação. E esta observação alheada fá-lo rapidíssimo e difuso ou, por vezes, suspenso, estagnado e muito triste. E, nem assim, lhe captamos a demora.
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18 setembro 2021
#3 Considerações : Cul-de-Sac
7. 
Sim, escrever é inscrever-se, agir pela consubsatanciação da intenção em acto, mesmo que possa parecer encerrado, para sempre, no plano teórico. Mas, o que é agir senão sair, para fora, para o mundo, da casa natural da nossa intimidade? Se se age por acções ou pela descrição delas é, porventura, indiferente, no sentido em que ambas vão tocar a realidade, transformando-a. 

8.
São plúrimos, na vida, os modos de aperto, de aflição. A começar pelas condições civilizacionais contemporâneas e terminando nessa desorientação íntima, por nós criada a contragosto, mas com tão perene força que se diria que é mais um constrangimento externo do que um desassossego interior. De permeio, existem aquelas condições universais do malogro que originaram religiões, filososofias e seitas. É uma opressão que acompanha a consciência enquanto tal, pois a evidência da sua finitude e da sua iminente fragilidade dói e magoa, assusta e não dá paz. Nem adianta pensar que isso é conatural ao pensamento, que é de todos os tempos e de alcance total. Cada um sofre por si e o sofrimento expande-o no sentido em que a morte anulará, do ponto de vista subjectivo, o próprio cosmo. Talvez haja uma sobrevivência qualquer, mas isso não é mais do que esperança vaga, difusa. Aqui temos já o que é palpável, depois logo se vê. Enquanto isso há que viver e sofrer e procurar um módico de tranquilidade, um inconstante equilíbrio entre a certeza da corrupção e as forças anímicas que tentam alcançar a renovação possível no ciclo caleidoscópico dos dias que se sucedem, sem um momento de pausa, uma dilação onde se respire e haja o ensejo de pensar, a um nível profundo, na miríade de escolhas ou tão só que permita fixar a atenção nos fugidios momentos que passam para lhes fixar, deveras, a essência. 

9.
O ânimo vital é tudo. Só ele permite combater as potências da decadência e da corrupção, afinal, ínsitas à existência. De outro modo será caminho sem saída, subjugação ao peso do quotidiano e à delapidação do tempo, que soe erodir como ele só, daninho e cruel, persistente e insidioso, paciente e tenaz. É fúria mansa essa do tempo, Cronos a devorar os próprios filhos e ninguém é Zeus para escapar ao repasto.
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17 setembro 2021
#2 Considerações: Cul-de-Sac
4. 
Tudo isto parecem generalidades a propósito de um livro, mas se tudo é vago, na vida, por que não deveria ser vago, na literatura? Estamos sempre envolvidos em sensações difusas, um supor emocional que não dá paz nem sossego, nem sequer, amiúde, confiança em um tempo melhor, excepto por esse optimismo doido dos sonhadores que acredita sem provas, que arquitecta planos sem evidências, que é teimoso em não aceitar a derrota quando, pela razão, já nada há a fazer. É um fervor de felicidade suposta e lânguida que existe apenas na imaginação e é vivida apenas nela, triste e leda condição virtual que tem o dom de ocupar a vida sem que esta seja vivida. Ainda assim, pretende-se que a escrita seja reacção lúcida a tais devaneios, modo quase telúrico de procurar um caminho, vertendo em palavras o queixume da vida fruste, não entendendo, porém, que esse esforço lúcido é de um realismo paradoxal -- ao entender o sonho cristalizamo-nos na crítica desperta aos estados de imaginosa fuga não vendo, então, que isso é também alienação nossa.

5. 
Sobre a questão há, ainda, algo a dizer. É poético, é plenamente poético, o que que é fora-do-mundo, e a prosa deste livro é poética porque não há nele verdade, mas devaneio. Catarse pelo delírio, tratando-se os males do irrealismo com outro modo de o ser que é esta escrita. Mas que contém, talvez, alguma eficácia confessional ainda que suposta. 

6. 
Pois bem, dizer é já um modo de ser. Ténue acção, é verdade, mas quem tropeça nessa modalidade comum de vida prática encontra na comunicação disso não só um bálsamo para a inevitável melancolia que daí advém, como uma solução suposta para a sua inscrição no mundo.
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16 setembro 2021
#1 Considerações: Cul-de-Sac
1. 
As declinações dessa opressão vital que acomete o vivente. Ser é estar cerrado na existência. E se isso dói, há que encontrar uma catarse qualquer. E essa bem pode ser a escrita nas suas variações infinitas, na capacidade de declarar o que é subtil, mas também o que é complexo, condições fundamentais para a exploração intrapsíquica dessa tal angústia ou aperto essencial. 

2. 
Poderia ser diferente? A vida usada levemente sem o peso esmagador da simples condição de ser? Em raros momentos ou em raras pessoas, talvez. Porém, no geral e comum, a angústia é o plano do real, eixo de densidade onde, parece, nos afundamos. E na fugacidade do desejo não há solo nem qualquer chão, tudo é fluido e se torna distante e nem se consegue agarrar o que é amado nem sequer a própria vida, desperdiçada em errâncias e nos labirintos que nós próprios engendramos. 

3.
Disto, liberta-se um fantasma de tristeza e melancolia que nos comeria vivos se não houvesse reacção ao fenómeno. E é difícil esse combate porque é insidioso o desânimo e, assim, há uma resistência natural às melhores intenções de liberdade e vida plena, ou tão-só de um melhoramento suave das suas condições anímicas. De resto, também as circunstâncias exteriores são obstáculo perene, dificuldades previstas ou imprevistas que nada acrescentam, mas existem com a resistência tenaz da realidade, embora sejam tão contextuais que, passado pouco tempo, se não entende já porque foram.
12:20 | 0 Comentários

15 setembro 2021
Cul-de-Sac
Chegou o meu último livro: Cul-de-Sac. 
Nos próximos dias publicarei algumas considerações sobre o livro.
Podem comprá-lo aqui.
14:54 | 0 Comentários

08 junho 2021
Diário Laboratório 2021
12/1/2021 
Contudo, é evidente que se sofre de um tipo de bloqueio que é, aliás, muito profundo: o bloqueio pela proliferação disforme do fragmento.
12:00 | 0 Comentários

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